“Sempre pensei que fosse
resistente a mudanças, sempre pensei que ‘minha casa’ fosse o lugar onde
estivessem minhas lembranças e meus hábitos. Tomo consciência, agora, que ‘minha
casa’ é onde estou. Nesse bairro, nessa rua, nesse prédio, nesse apartamento e nesse
quarto, que me eram estranhos, encontrei um lar”.[1]
Iris.
Grifo esta frase em meu livro e, entre tantas outras, é ela
que permanece, que me acompanha mesmo após eu ter terminado a leitura.
“Tomo consciência, agora, que minha casa é onde estou”. A
frase me intriga e eu quero entender o porquê.
A história, sabemos, nos apresenta três personagens
principais:
Jeanne, que após a morte do seu amor, se sente desconectada
da sua casa, do seu ateliê, daquele lugar que sempre foi “um lugar para chamar
de seu”. Seu lar passa a ser as horas que ela passa junto ao túmulo de Pierre,
contando-lhe os movimentos do seu dia.
Theo é órfão. Mora em um abrigo para menores e, apesar dos
desafios que enfrenta ali, ali é a sua casa, o lugar onde ele pode ser
encontrado. Mas ele completa 18 anos e é obrigado a deixar o lugar. Passa a
dormir no metrô e depois dentro do velho carro que ele compra com o pouco que
ganha em seu trabalho. Enfim, “um lugar para chamar de seu”. Mas o carro é
guinchado e o metrô volta a ser o seu quarto de dormir, com todos os sobressaltos
que isso representa.
Iris, jovem, inteligente, mas para quem a casa da mãe já não
lhe cabe, a casa sonhada com o noivo, como um “castelo de cartas”, desmorona.
Ela está só, amedrontada, e sem “um lugar para chamar de seu”.
Todos eles estão "longe de casa", e suas histórias, seus
dramas e suas preocupações - todas essas coisas, me trazem à memória algo lido
num dia desses:
“Todas essas coisas” estão
sempre sugando a nossa atenção. Levam-nos tão longe de casa que no fim nos
esquecemos do nosso verdadeiro endereço, isto é, o lugar onde podemos ser
encontrados”.[2]
O “verdadeiro endereço"– "o lugar onde podemos ser
encontrados", me diz muito mais sobre presença, do que sobre o
lugar físico.
Um lugar físico é uma necessidade real. Grimaldi nos mostra
Jeanne, Theo e Iris à busca de moradia. Mas também é verdade que podemos
ter uma casa sem nos sentirmos em casa.
“Casa” vai além. Como já foi dito, tem a ver com "presença".
Casa é um lugar onde eu posso de fato ser encontrada e um
lugar onde me encontro comigo mesma.
Casa tem a ver com o meu corpo, esse todo que me compõe e
que materializa a relação com quem está próximo a mim ou mora
comigo.
Casa tem a ver com essa capacidade de eu tomar consciência
de mim mesma, me perceber e me acolher, estando em paz com minha própria companhia (isso sim
é se “sentir em casa!”).
Tenho para mim que o ponto de inflexão para Iris se dá quando ela enxerga sua própria história com os olhos desnudos, e então, restaura a sua dignidade
e compreende o valor da sua vida assim como ela é - Nesse bairro, nessa rua,
nesse prédio, nesse apartamento e nesse quarto, que me eram estranhos,
encontrei um lar.
Jeanne e Theo passam por processos semelhantes, ressignificando
suas experiências de casa, olhando para frente e, cada um a seu tempo, aprendendo a viver o momento presente como um presente da vida.
E não haveria melhor forma de terminar este texto, do que
parafraseando as palavras de Iris:
"Eu sempre pensei que fosse resistente a mudanças, sempre
pensei que “minha casa” fosse o lugar onde estivessem minhas lembranças e meus
hábitos. Tomo consciência, agora, que “minha casa” é onde estou. Nesse bairro,
nessa rua, nesse prédio, nesse apartamento, que me eram estranhos, encontrei um
lar".
Ellen - 21/12/2025
PS. Há mais de um ano me mudei para um novo apartamento. Morei
22 anos no mesmo lugar com minha família. Fiquei com a sensação de que deixei
para trás minha casa e o lugar onde estavam minhas lembranças e meus hábitos. Às
vezes uma saudade de andar por aquelas ruas tão conhecidas. Mas como Iris, tenho
aprendido que minha casa é onde estou. Então, gratidão no
coração.

Ótima reflexão! Amei o livro! Quando nos sentimos confortáveis em ser quem somos, quanto mais nos conhecemos e encontramos contentamento, mais nos sentimos em casa.Bj. Vanessa
ResponderExcluirSimmm!! 🫶
ExcluirAmei o livro! Parabéns por sua reflexão, traduz exatamente a mensagem do escritor.
ResponderExcluirFeliz que tenha gostado do livro e do texto! 🤗
Excluir