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Mostrando postagens com o rótulo 50 motivos

#6 Cidas, Divas e Gabrieles

1980 Seu nome é Hilda. Lembro-me vagamente da sua fisionomia, entretanto, lembro-me bem do tártaro verde dos seus dentes... eu não tinha coragem de encarar o seu olhar. Forço mais a memória: cabelos escuros, meio crespos, estatura média, rechonchudinha. Raramente saía da sua mesa para vir até a minha. Dona de uma curta paciência, ela me amedrontava.  Eu não conseguia me fixar nos números, nas contas, nas tantas atividades a serem feitas. Então, eu era solicitada com uma certa frequência à sua mesa. Muda, cabeça baixa, conseguia apenas encarar o tártaro.  Meu medo foi se avolumando até eu não querer mais ir para a escola, o que levou minha mãe até lá, para tentar entender o que acontecia. Então, pela última vez, sou chamada à sua mesa. Ela me expressa uma preocupação fingida. Não me lembro das suas palavras, não me atrevo a encará-la, lembro-me apenas do verde tártaro. 1982 Seu nome é Cida, Maria Aparecida. Não me lembro muito bem da sua fisionomia. ...

#4 Minha melhor amiga

 Foi na formatura da filha Dudi. A festa é muito simbólica porque a Arquitetura sempre foi o sonho dela, desde muito pequena. Começou os estudos em Londrina, terminou em São Paulo, na Mackenzie. A festa é uma explosão de alegria com sabor de conquista e, ao mesmo tempo, de expectativas frente à futura carreira que a aguardava a partir daquele dia. A festa é contagiante, cheia de sons, de cores, de sabores e de amigos. Na mesa da família, a família, orgulhosa de tudo o que aquele momento representa. No salão, uma maravilhosa confusão de formandos e amigos indo e vindo, rindo e se abraçando, pura alegria. Dudi vem à nossa mesa, com aquele seu jeito de ser, toda expansiva e intensa, e nos apresenta a amiga recém-chegada: “Família, essa é minha melhor amiga!”. E, claro, a gente fica feliz em conhecer a sua melhor amiga. Alguns minutos se passam, e novamente ela vem à nossa mesa com outra amiga, e nos apresenta: “Família, essa é a minha melhor amiga!”.   O curioso é q...

#3 A presença

❤ Sabe quando um texto te chama? Você lê e ele fica com você. Você dorme, acorda, dorme, acorda, passam-se os dias, e ele continua ali. Você, até sem perceber, começa "lincar" várias coisas do seu dia a dia com o texto. Começa "lincar" outros textos com o texto. Eu nem sei dizer quantas vezes já li Isaias 40 na minha Bíblia. Aliás, ele está na minha lista de textos bíblicos preferidos. E digo o porque: gosto de ler e imaginar o que o texto sugere.  “Quem mais segurou os oceanos com as mãos? Quem mediu os céus com os dedos? Quem mais sabe o peso da terra ou pesou na balança os montes e as colinas? ”. Verso 12.  Também gosto da maneira que ele é escrito: vai jogando várias perguntas ao leitor, e vai naturalmente impulsionando o pensamento.  Ele aponta Deus e a sua grandeza. Quando o leio, sou levada a afirmar com devoção: esse é o Deus da minha vida! Mas desta vez, as perguntas do texto me chamaram a atenção de um modo diferente. Em vez da contemplação, elas me provoc...

#50anos

❤ Neste ano fiz 50 anos. Em novembro. Dia 28. Confesso que eu estava um pouco triste. 50 anos em plena pandemia. Mas absorvi a realidade. O novo normal nos impõe esta condição. Decidimos fazer a comemoração em casa, à quatro: eu, meu marido e meus filhos. Planejamos o menu do jantar e meu filho Danilo se encarregou de ser o chef da noite. Compramos os ingredientes, as bebidas, preparamos o ambiente e, nessa altura, eu já estava bem feliz, curtindo meu momento. O dia 28 amanhece, tomo o meu banho e me sinto feliz, grata a Deus pela minha vida e pelo dia que reservava os preparativos para a minha noite especial. Saio do quarto e observo que meu marido está me filmando no celular.  Caminho para a sala imaginando o que ele está "aprontando".  A mesa está lindamente posta com uma belíssima cesta de café da manhã, e aqueles balões enormes infláveis, com os números da minha nova idade (tenho que dizer: amei os balões!). Ele pede que eu acene com um “oizinho” e, só então,...

#2 Meu melhor amigo

Como é interessante o movimento da vida. No final dos anos 80, me mudei para Londrina junto com meus pais. Meus irmãos já tinham alçado seus voos atrás dos seus sonhos, e eu estava naquela fase adolescente de entender o que eu queria para a minha vida. Foi uma mudança difícil para mim. Em Florianópolis deixei namorado, amigos de infância e adolescência, em meio a um choro contido, despedidas doídas e a expectativa hesitante de morar em um lugar novo, onde eu não conhecia ninguém. Um ano se passa, novos amigos, vestibular, e enfim, a faculdade. Mas, o improvável acontece: nova mudança. Agora, para Curitiba. Desta vez não doeu tanto e eu só tinha que providenciar a transferência da faculdade. Simples. Ou não. Todas as tentativas foram frustradas. Então meus pais vão, e eu fico.  Os anos passam e agora estou indo para o último ano da faculdade, morando em uma república com mais três amigas. Eis que certo dia, minha amiga e xará Ellen, estudante de Artes Plásticas, me convida...

#1 A vida

A questão não é se ela é perfeita. Isso não é o importante, e é bom que não seja, porque essa perfeição não existe. A questão também não é se ela é plena, porque não é, e nunca vai ser, humanamente falando. E a sua beleza consiste nessa incompletude, nesse “vir a ser”, que nos impulsiona à busca, a prosseguir. O importante da vida não é enumerar apenas as suas conquistas, mas computar também suas derrotas, porque estas nos fazem mais sábios, mais sensatos, mais humanos. O importante não é o holofote, mesmo porque, um dia ele se apaga... e o que restou de nós? É bom ficarmos atentos pois a pretendida popularidade pode minar nossa essência pura e nossa liberdade essencial. A questão da vida não está no quanto patrimônio acumulamos ou no montante dos nossos investimentos financeiros, ou nas batalhas vencidas que nos deixaram monetariamente mais ricos... muitas vezes ganhamos o mundo e perdemos nossos tesouros mais valiosos, aqueles que nos são realmente valiosos. A questão não é...

#5 A escrita

Escrevo pra mim mesmo, faz parte da minha essência. O meu objetivo não é escrever para o outro, sequer há um objetivo assim, definido. Escrevo para expressar o que se passa na minha alma. É como quando a visão está embaçada e você foca o olhar para enxergar melhor. É isso o que a escrita faz comigo, ela me ajuda a me enxergar melhor. Escrevo para ordenar meu pensamento. É como quando um tornado tira tudo do lugar e tudo fica pelos ares e em caos, até que vem a calmaria, e tudo se assenta. É isso o que a escrita é para mim. Ela é a calmaria em meio ao caos de pensamentos velozes e muitas vezes desconexos. Ela é a minha quietude e solitude necessárias. Escrevo para fixar as coisas que eu aprendo na caminhada. Tenho essa necessidade de capturar em palavras as ideias e aprendizagens que me transformaram de alguma maneira. Já dizia Rubem Alves: "Tenho sempre comigo o meu caderno. Meu caderno é a minha gaiola de prender ideias. Porque as ideias são entidades fugidias, pássaros. ...