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Mostrando postagens com o rótulo Coisas da vida

#6 Cidas, Divas e Gabrieles

1980 Seu nome é Hilda. Lembro-me vagamente da sua fisionomia, entretanto, lembro-me bem do tártaro verde dos seus dentes... eu não tinha coragem de encarar o seu olhar. Forço mais a memória: cabelos escuros, meio crespos, estatura média, rechonchudinha. Raramente saía da sua mesa para vir até a minha. Dona de uma curta paciência, ela me amedrontava.  Eu não conseguia me fixar nos números, nas contas, nas tantas atividades a serem feitas. Então, eu era solicitada com uma certa frequência à sua mesa. Muda, cabeça baixa, conseguia apenas encarar o tártaro.  Meu medo foi se avolumando até eu não querer mais ir para a escola, o que levou minha mãe até lá, para tentar entender o que acontecia. Então, pela última vez, sou chamada à sua mesa. Ela me expressa uma preocupação fingida. Não me lembro das suas palavras, não me atrevo a encará-la, lembro-me apenas do verde tártaro. 1982 Seu nome é Cida, Maria Aparecida. Não me lembro muito bem da sua fisionomia. ...

A pombinha

Choveu esta manhã. Fui para o escritório e trabalhei embalada ao som da água caindo lá fora. Olhei para a sacada e vi a pombinha lá, andando de um lado para o outro, toda molhada, vez por outra chacoalhando as suas asas para se livrar do peso da água. É preciso dizer, ela é uma visitante ilustre que todo dia vem dar o “ar da graça”, tão perfeita, toda branquinha com o seu rabinho de leque, verdadeira obra de arte do Deus criador. Aliás, costumo dizer que quando ela aparece é Deus vindo me dar bom dia, encarnado na sua criação. Mas hoje, ao olhar para ela ali debaixo da chuva, senti o ímpeto de protegê-la, e comecei a pensar como eu poderia fazer um abrigo ali, para ela. Cada vez que eu a olhava andando de lá para cá, meu coração apertava, eu queria protegê-la, a “minha pombinha". E quanto mais meu coração apertava, mais eu ia ganhando consciência de que eu não deveria fazer nada. Ela sabe se virar, ela tem para onde ir, seu instinto lhe diz o que fazer. Foi assim que o...

Desperta! Aquiete-se!

Sexta-feira tive uma noite mal dormida. De manhã, quando comecei a embalar um sono, pensei: “Vou aproveitar esse embalo e dormir até a hora que eu conseguir”. Eu havia me comprometido, na noite anterior, a acordar cedo para participar de um encontro virtual, uma aula, com um médico integrativo e com sua esposa, que é a minha instrutora de Atenção Plena. Ambos, amigos queridos.* O despertador toca, eu o desligo e continuo deitada, com uma pontinha de culpa. E durmo, deliberadamente. Então, minha gatinha começa a miar do meu lado, pedindo o seu “café da manhã”. Eu tento ignorar, tapo os ouvidos com o travesseiro, estou com sono! Enfim, me levanto. Alimento a Sophie, acabo despertando e agradecendo por ela ter me arrancado da cama. Me arrumo e vou para a minha aula. E que aula! Fiquei feliz por ter despertado e participado, atenta, àquele momento precioso. No dia seguinte, que é hoje, domingo, estou em minha cama, acabei de acordar, com vontade de ler a palavra do Pai. Estou e...

Vida em vida

Me encontrei recentemente com uma amiga querida. Almoçamos juntas e colocamos o papo em dia. Compartilhamos vida. Vida! Embora haja estudos e pesquisas abundantes sobre uma humanidade cada vez mais ansiosa, eu olho perplexa para minha própria vida. Constato a minha vulnerabilidade, meus vazios existenciais, meus questionamentos, identifico gatilhos, admito períodos em que sinto tédio e ansiedade, e relembro tempos passados. Parece-me que, outrora, minha fé era tão firme e inabalável, a esperança tão viçosa e resiliente e eu mais forte. Pode ser que sim ou pode ser que não... porque, no final das contas, isso não é o mais importante.  Eu admito as minhas mazelas, mas elas não me definem. Tenho aprendido que o cerne da minha vida não é o que eu sinto. O mais importante não são os meus sentimentos, embora eles sejam importantes. O cerne está no que eu creio. É daí que flui a vida. Essa é a nossa âncora. Certa feita, um especialista na Lei de Moisés, querendo provar Jesus, perg...

Meus eus

♡ Mas... eu não sou eu? Não.  Eu sou eus. _________ Ellens - junho 2023.

Saudade

A vida é assim. Ela vem. Se instala. Se esbalda. Se espalha. Encanta. Aflige. Contagia. Preenche. Mas um dia se vai. E o que fica? Saudade. Sempre é dia para amar e demonstrar amor. ❤ Ellen Londrina, 09/02/2024. Saudade da vó Calu.

Óculos

♡ Um dia, lendo minha Bíblia:  "Como a corsa anseia pelas correntes de água, assim a minha alma anseia por ti, ó Deus. Tenho sede de Deus, do Deus vivo; quando poderei estar na presença dele?" Salmos 42.1 ♡♡♡ Sinto que aprendi a ler a Bíblia de óculos: óculos da religiosidade, óculos dos meus próprios desejos, óculos da cultura evangélica.  A impressão que tenho, é que não vi Deus direito. Impressão de grau desajustado.  Hoje, sinto a necessidade de me desapegar dos óculos, e reaprender a ver Deus. A minha alma continua com sede de Deus, do Deus vivo. Ellen

Marche!

(Dia de tirar texto do baú!!!) Lendo Êxodo com a Bíblia de estudo. 14.10 – “À margem do mar vermelho, vendo os israelitas que o exército egípcio se aproximava, temeram”. À frente, o mar. Atrás, o exército egípcio. Segundo o comentarista bíblico, sobre este texto, “tanto a coragem quanto o temor dos que são principiantes na fé (crianças na fé) dependem tão somente das condições visíveis e externas.”   O povo olha para a circunstância, para as “condições externas e visíveis”, começa a lamuriar se esquecendo de tudo o que Deus já tinha feito, torna-se pessimista e descrente, e joga toda a culpa sobre Moisés. Neste ponto, o comentarista observa: “o libertador de um povo com espírito de escravidão tem uma das tarefas mais difíceis. Vê-se que quem escraviza o povo não era só o Faraó, mas também a própria mente mesquinha que achava melhor viver como boi ou cavalo, apenas com a comida garantida.” E Moisés, grande líder e educador, maduro na fé, é direto e objetivo. Sua tripla exortaçã...

Momentos

Conversava ontem com a filha Dudi e a filha Gi. Não, não são filhas que nasceram da minha barriga. Mas fui agraciada por Deus, por essas mulheres lindas que Ele colocou na minha vida. Dudi, filha do meu amor, mulher admirável, destemida e decidida desde muito pequenina. Gi, minha nora, mulher linda, corajosa, dona de uma fé pura e singela. E conversávamos assim, nós três,  noite adentro,  na cozinha, conversa solta, descontraída, gostosa. Cornélio Procópio, Aguativa Privilege, junho 2024. PS. A noite em que eu e Gigi acordamos a Du com as nossas gargalhadas.

Escuta ativa

Segunda-feira, 9 horas da manhã. Ainda estou envolta nos pensamentos que afloraram à mente nas horas mal dormidas da noite que se foi. Quando não se dorme, parece que todos os pensamentos nos assaltam. Mas agora, estou sentada à mesa, em meu trabalho. À frente, a tela do computador, ao lado as grandes janelas de vidro que me revelam a avenida movimentada. Dou um longo suspiro. Então algo chama a minha atenção! Um som. Olho para fora, e a paisagem é de postes, fios, carros, buzina, gente falando, enfim, os barulhos de um ordinário dia de semana... tão urbano! Mas algo me toca, uma melodia saltitante que me desperta e me move à sua procura. Olho de novo, e ali está ele, olhando para mim, cantando e estufando o seu peitinho. Sou tomada de enlevo. Fecho os olhos e escuto com os ouvidos e com o coração. Escuto Deus: “Observem os pássaros. Eles não plantam nem colhem, nem guardam alimentos em celeiros, pois seu Pai celestial os alimenta. Acaso vocês não são muito mais valiosos ...

As irmãs

A minha mente não consegue alcançar Deus, não consegue explicar Deus. Ela questiona, quer ver a lógica na existência de um Deus, que é o Deus criador, o Deus da Trindade, o Deus que está distante, mas que está perto... minha mente não alcança isso, questiona. Mas a fé que há em mim, acolhe esse Deus, e permite que esse Deus, cuja existência está além do nosso mundo natural, o Deus sobrenatural, me traga sentido de vida. Em Deus, então, tenho vida, vida plena, apesar da nossa incompletude de seres humanos. Aos questionamentos da minha mente eu digo: “Tudo bem, você é a mente sendo mente. Apenas respeite (e até aceite!) a presença da fé, sua irmã. E respeite aquela outra dimensão que ela traz... e que torna a vida tão bela, tão desafiadora”. Ellen - 12/02/2023 Sobre a foto Parte 1 - Houve um tempo em que haviam duplas de cuidado mútuo em nossa igreja. Minha mãe e a Maria Helena formavam uma destas duplas, e eu brincava: "Tudo bem, eu compartilho a minha mãe com você!"...

Fases

Um dia, andando por uma rua perto da minha casa, eu vi um pé de boldo do Chile nas rachaduras de uma calçada. Sem hesitar abaixei, peguei um galhinho e o levei comigo. Já tinha planos para aquela mudinha: no meu trabalho, plantaria um pé de boldo em uma floreira na sacada. Fiz isso, e o boldo vingou, ficou bonito e frondoso. Mas depois de um tempo, eu percebi que alguns matinhos estavam crescendo junto e, então, passei a me cobrar mentalmente: preciso separar um tempo para tirar essas ervas daninhas! Pois imagine que, quando eu finalmente fui fazer esta limpeza, me deparei com uma florzinha linda e solitária, miúda e delicada, em meio às folhas. Um cabo longo e fino e ela ali, me atraindo com a sua beleza frágil. Peguei o meu celular e tirei várias fotos, de todos os ângulos, na tentativa de captar aquela beleza tão singela. Então, decidi deixar o matinho e sua linda florzinha viverem mais um pouco. Em poucos dias, ele cresceu ainda mais, expandiu seu caule e folhas por entre...

A&E

Londrina, 24 de março de 2023. Hoje eu te magoei. Fui tão insensível. Me perdoa. 30 anos é sobre isso também. --- Cornélio Procópio, 27 de março de 2023. Hoje eu só quero celebrar porque, há 30 anos atrás, decidimos caminhar com essa aliança em nosso anelar esquerdo. E eu ainda lembro da minha emoção quando, jovem recém-casada, olhava para a aliança em meu dedo, cheia de orgulho, e pensava: casada! Hoje eu quero celebrar.  Eu celebro nossas diferenças, porque elas nos fazem mais completos. E celebro nossas semelhanças, porque elas nos fazem próximos. Eu acolho com reverência o choro gerado nas tempestades da vida. Elas, de alguma forma, nos ensinaram e nos fizeram mais fortes.  Celebro nossos momentos de felicidade, de gargalhadas, de cumplicidade no olhar e de cumplicidade nas atitudes. Celebro o carinho mútuo, o cuidado com o outro, os sonhos que sonhamos juntos. Celebro a nossa caminhada, porque nela nós fomos nos construindo. "... é na caminhada que a gente se faz gente, s...

Por quê? Por quê?

(Dia de tirar texto do baú!!!) Hoje, em minha meditação, fui tocada pelo texto: “Ensinai-me, e eu me calarei; dai-me a entender em que tenho errado.” [1] Me ocorre que eu posso enlouquecer tentando entender “o por quê” das coisas. Por que os filhos, muitas vezes, se afastam da fé, se somos diligentes no seu ensino; se este ensino é coerente; se sempre os apresentamos a Deus em oração; se sempre os confrontamos quando erram? Por que determinada oportunidade de negócio não dá certo, se buscamos sinceramente a orientação de Deus? Por que sofremos prejuízos financeiros se sempre agimos com lisura, com honestidade e retidão? Por que somos abatidos pela doença se temos uma vida regrada e uma alimentação saudável? Por que, às vezes, a tragédia nos atinge? Por quê? Às vezes me sinto como Jó, perguntando: “em que tenho errado”? Mas, tenho aprendido que o foco não deve ser esse. Concentrar a nossa atenção na tentativa de entender “o por quê” não é saudável. Veja: “Quase me...

En cas

Gosto de ler sobre sobre alimentação saudável. Uma alimentação que promova a saúde, e não a ruína do meu corpo. Certa vez, li um livro curioso sobre o estilo de vida das francesas. Leitura leve e interessante, focada  justamente na relação que existe entre aquilo que comemos e a nossa qualidade de vida, e como isso deve ser prazeroso e pacificador.  Dentre tantas coisas, a autora orienta a identificarmos alimentos agressores e fazermos substituições . E também nos aconselha, em caso de um ataque de fome ( en-cas ), sempre termos alguma coisa em mãos, algo que, ingerido, o corpo registre como uma refeição ligeira ( minirepas ), para calar os “pequenos demônios” ( petits démons ).  Por exemplo: ter por perto um pequeno saco com castanhas, pode ser não apenas um intimidador psicológico no caso de um ataque de vontades, como também um substituto capaz de refrear o ímpeto  da fome até o momento da refeição. Guarde isto:  En-cas... "no   caso de" . O interessan...

Foco no essencial

❤ Hoje, domingo. Último dia de janeiro de 2021. Enquanto tomava meu banho, organizava minhas ideias sobre o novo ano e sobre meus objetivos para ele. O ano virou com um sopro de esperança pela chegada da vacina contra o Covid-19. Toda virada de ano, por si só, nos traz um sentimento de recomeço, de novas chances, de algo novo, de que melhores dias virão. Sentimentos bons de esperança. Mas esse início de ano, para mim, foi diferente. Nem bem começou e já vivi dias de muito estresse, juntamente com minha família. Acontecimentos que geraram perplexidade, decepção e frustração. Sentimentos incômodos de injustiça. E sem que eu percebesse, eles desencadearam em mim um processo de ansiedade acompanhado de   sintomas já conhecidos  e evocaram lembranças de tempestades outrora vividas. Me vi ali novamente, no meio da tempestade emocional, meus olhos fitos nos raios e trovões, sentindo a chuva intensa me deixar completamente encharcada. Sensação de estar afundando.  ...

Confissões

Sou uma mulher de 49 anos. Para ser mais precisa, estou a três meses de completar cinquenta anos. Se por um lado me surpreendo (Uau! Cinquenta anos! O tempo passou tão depressa!), por outro lado, me olho no espelho e uma onda de gratidão invade a minha alma. Não que minha vida até aqui tenha sido um mar de rosas; não que eu tenha alcançado todos os meus sonhos; não que minhas expectativas todas tenham se cumprido; não que eu não sinta no corpo os efeitos do tempo. Quando do alto dos meus trinta e poucos anos meu oftalmologista me alertou que a partir dos meus quarenta anos talvez eu começasse a sentir necessidade de usar óculos, eu respondi: “Ok!”. Mas lá no fundinho, eu pensei: “A tá! Capaz! Tenho cem por cento de visão!”.  Entretanto, hoje confesso: no ano em que completei exatos quarenta anos, fiz meus primeiros óculos. E quando eu publiquei uma foto minha no Instagram, com alguns cabelinhos brancos à mostra e perguntei: “Branquinhos chegando! Eles ficam, ou sumo com ele...

"Pra onde tenha sol, é pra lá que vou..."

Toda manhã a cena se repete.  Acordamos, meu marido levanta primeiro e coloca a ração da Sophie. Nossa gatinha come e vai no banheirinho dela.  Em instantes volta pro nosso quarto e  fica rodeando, procurando seu lugarzinho ao sol.  Só sossega quando eu libero a cama para ela e, então, aninha-se sob os raios solares. Ali  se aquece. Relaxa. Descansa. Curte o momento. Toma o seu banho de lambidas. Cochila feliz. A cena bem que pode ser uma metáfora da nossa procura pelo Pai, logo de manhã. Levantamos e já buscamos a luz da sua presença que nos aquece e nos refaz. Nele descansamos e banhamos a nossa alma. Nele somos felizes. João 1.9 Ellen

Sim, eu tive depressão. Hoje tenho escolha, desafio e pressa.

Último dia do ano. Motivos para agradecer? Minha vida sem depressão! Agradeço constantemente a Deus! Um simples caminhar pela rua, da minha casa ao trabalho, de cabeça erguida, percebendo as cores e os movimentos ao meu redor, é motivo de satisfação e profundo agradecimento a Deus. As novas aprendizagens dos três últimos anos são tesouros inestimáveis. Tantas novas descobertas sobre mim mesma, algumas desconcertantes, mas necessárias. Um novo olhar sendo construído a respeito da vida, da família, da igreja, de Deus. Se por um lado todas as minhas estruturas foram abaladas, algumas desconstruídas mesmo – e esse é um processo doloroso, por outro lado, enseja-se o novo. O espetáculo da vida continua com um elemento inestimável que eu julgava ter perdido, mas que está aí, insinuando-se à véspera do novo ano: o desafio! Sou desafiada à reconstrução da fé em Deus, da autoestima, à afirmação dos princípios que me fazem ser quem eu sou, à autoafirmação como ser hu...

Calmaria 1

"Navegar é preciso", já dizia o poeta. No mar da minha vida tenho experimentado águas tranquilas, piscinais. Baixo a guarda, aquieto meu coração e contemplo a paisagem. A impressão é que a calmaria não será jamais e, novamente, perturbada... Até que, inesperadamente, uma tempestade abate-se sobre o meu barquinho. Ondas bravias me arrancam da minha segurança, chego a pensar que não adianta mais resistir e lutar... Então, lembro-me das palavras do salmista: “Todavia, estou sempre contigo, tu me seguras pela minha mão direita” (Salmos 73.23). Quando penso estar à deriva no oceano da minha existência, sinto a mão amorosa do meu Deus segurando a minha mão, me sustentando, conduzindo-me novamente às águas tranquilas que fluem da sua presença. Calmaria novamente. Ellen Quintela Duarte  Jan/2011