Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Livros que li

O que resta de nós: ausência ou presença?

“Sempre pensei que fosse resistente a mudanças, sempre pensei que ‘minha casa’ fosse o lugar onde estivessem minhas lembranças e meus hábitos. Tomo consciência, agora, que ‘minha casa’ é onde estou. Nesse bairro, nessa rua, nesse prédio, nesse apartamento e nesse quarto, que me eram estranhos, encontrei um lar”. [1] Iris. Grifo esta frase em meu livro e, entre tantas outras, é ela que permanece, que me acompanha mesmo após eu ter terminado a leitura. “Tomo consciência, agora, que minha casa é onde estou” . A frase me intriga e eu quero entender o porquê. A história, sabemos, nos apresenta três personagens principais: Jeanne, que após a morte do seu amor, se sente desconectada da sua casa, do seu ateliê, daquele lugar que sempre foi “um lugar para chamar de seu”. Seu lar passa a ser as horas que ela passa junto ao túmulo de Pierre, contando-lhe os movimentos do seu dia. Theo é órfão. Mora em um abrigo para menores e, apesar dos desafios que enfrenta ali, ali é a sua casa, o l...

Se eu soubesse

"Se eu soubesse contar infinitos" ... Tudo seria diferente? O sofrimento seria evitável? Não teríamos erros a computar? O caminho seria plano E nossos planos seriam retos E retas seriam nossas ações? Não haveria o choro da decepção? A dor da rejeição? O som estrondoso do silêncio?   "Se eu soubesse contar infinitos" ... Como seria esse universo chamado Vida? Não haveria o oco do abandono? O medo do incerto? A inércia que vem da incerteza? Nossa fala seria sempre assertiva E assertiva seria a expressão do nosso amor? Nosso mundo redondo seria apenas de risos e gentileza, De coloridos, luz e música?   "Se eu soubesse contar infinitos" ... Mas eu não sei. Ninguém sabe.   Tereza passou uma vida inteira absorta em seus círculos, tentando exprimir na sua arte, aquilo que na vida era impossível: a previsibilidade reconfortante, o conhecimento pleno das coisas, a justiça soberana em todas as esferas da vida. Círcul...

A pombinha

Choveu esta manhã. Fui para o escritório e trabalhei embalada ao som da água caindo lá fora. Olhei para a sacada e vi a pombinha lá, andando de um lado para o outro, toda molhada, vez por outra chacoalhando as suas asas para se livrar do peso da água. É preciso dizer, ela é uma visitante ilustre que todo dia vem dar o “ar da graça”, tão perfeita, toda branquinha com o seu rabinho de leque, verdadeira obra de arte do Deus criador. Aliás, costumo dizer que quando ela aparece é Deus vindo me dar bom dia, encarnado na sua criação. Mas hoje, ao olhar para ela ali debaixo da chuva, senti o ímpeto de protegê-la, e comecei a pensar como eu poderia fazer um abrigo ali, para ela. Cada vez que eu a olhava andando de lá para cá, meu coração apertava, eu queria protegê-la, a “minha pombinha". E quanto mais meu coração apertava, mais eu ia ganhando consciência de que eu não deveria fazer nada. Ela sabe se virar, ela tem para onde ir, seu instinto lhe diz o que fazer. Foi assim que o...

Conectadas

Sábado, 19/07/2025, encontro 19 do  Book Lovers . Diva, 81 anos (fico sabendo depois) se aproxima, olha em meus olhos e diz que gostou muito das coisas que escrevi. Sempre me emociono e me surpreendo quando o que escrevo encontra eco no outro. Me senti abraçada. Não um abraço meramente formal, mas um abraço emblemático, carregado de significado. É o abraço da "gran mère" que me desafia a "ser jovem enquanto velha, velha enquanto jovem". Sim, me lembrou aquele livrinho precioso de Clarissa Pinkola Estes: Ciranda das mulheres sábias . E não foi exatamente isso o que aconteceu no encontro do Book Lovers deste sábado? Uma grande ciranda de mulheres sábias compartilhando vida. Que potência! E, no entanto, quanta ternura!  Enquanto eu ouvia atentamente cada pronunciamento nessa conexão mágica de gerações, de mulheres mais jovens e mulheres mais velhas que se escutam, se acolhem, se amparam e se olham nos olhos, eu ia me sentindo cada vez mais na "pequena casa ...

Olá, querida

Olá, querida! Não. Não me refiro a uma saudação. Refiro-me ao livro de Ann Napolitano, “Olá, querida”. Foi a nossa proposta de leitura do Clube do Livro este mês. Devorei a leitura, como sempre, quando um livro me envolve e me joga para dentro das suas páginas. Agora, orfã da leitura e com saudade das personagens, fui procurar o filme Adoráveis mulheres, baseado no livro Mulherzinhas, de Louisa May Alcott, publicado em 1868. Isto porque no Olá, querida, as irmãs Padavano têm nas irmãs de Mulherzinhas uma referência, uma bússola existencial delas próprias. Então pensei: vou ler Mulherzinhas também. E comecei, mas desisti. Desisti não porque não tenha gostado do livro, mas porque senti que estava ficando saturada do universo das personagens, e eu não queria isso. Resolvi me afastar. Mas ainda havia muito tempo para o próximo encontro do clube, então pensei: o que faço enquanto isso? O que vou ler agora? Abri meu Kindle e escolhi aleatoriamente Machado de Assis: Helena, Pu...

Família somos todos

♡ O domingo se foi. Reunimos a família para um almoço especial: o aniversário da bisa. Obviamente não a minha bisa. É a bisa da minha neta Laurinha, minha sogra. O cardápio foi simples e aconchegante: arroz carreteiro e salada de almeirão. A sobremesa? O bolo de aniversário. Momento de família reunida, de “pegar no pé” um do outro, de tirar fotos com o celular, de risada, de comilança, de abraços e de adeus. Agora, a casa está vazia, ou quase vazia. Apenas eu, meu amor e minha gatinha. Sento-me sozinha no sofá, revendo e editando as fotos tiradas, e me detenho especialmente em uma delas. Nela, estou segurando a Laurinha, após sua mamãe amamentá-la. Contemplo a foto por um instante. Corto aqui, clareio ali, dou um close em nós duas. Pronto, ficou ótima. Fecho o meu celular e prossigo em meus afazeres. Dia seguinte, segunda-feira. Almoço sozinha. Após a última garfada, abro as fotos para que me façam companhia, e me detenho especialmente em uma: a tal foto em que estou segurando Laurinha...

O Jardim Secreto

Amei ler "O Jardim Secreto". Tem livros que conversam tanto comigo! Mary e Dickon não queriam um "jardim de jardineiro", eles queriam um jardim cuidado, mas livre, natural. De certa forma, sinto a vida assim. Não é toda arrumada e toda aparada,  não é toda perfeita. Mas é a vida. Talvez nisto resida sua beleza. O meu corpo, os meus textos, os meus amores, a minha casa, a minha família, os meus bolos, o meu trabalho, os meus treinos, os meus intentos, os meus pensamentos, o meu canto, as minhas palavras, as minhas ações, as minhas reações... não, não são perfeitos. Mas me refletem, tudo isso sou eu. Um belo jardim crescendo e se balançando, cuidado e regado. "Ele começou a caminhar por toda parte, erguendo os olhos para as árvores, para os muros e para os arbustos, com uma expressão pensativa.  ─ Não acho que queira fazê-lo parecê um jardim de jardineiro, todo aparado e bem arrumado, não é? ─ disse ele.  ─ É mais bonito como este, com as plantas crescendo ao aca...

Jardim de inverno

Recentemente li Jardim de Inverno , de Kristin Hannah,  o 4º livro dela que leio este ano. Gosto muito da sua escrita e dos temas que ela propõe.  Esta é a história das relações complexas entre uma mãe fria e distante, e suas filhas carentes da sua atenção e do seu carinho. As filhas crescem, todos seguem o seu caminho, conformados com a vida, até que algo acontece... É a história sobre seus medos velados e o poder que eles têm de ditar o curso de suas vidas. É a história da surpreendente mudança que ocorre quando é permitido um pequeno facho de luz sobre a crua e nua realidade da vida, fazendo com que a verdade e o medo, que estavam na profundeza, sejam trazidos à superfície e sejam enfrentados. O processo não é rápido e nem fácil, mas inevitável. É a história de um pai incansável em tentar aproximar mãe e filhas, pacientemente. É uma história de recomeços, "aos 45 minutos do segundo tempo”. A história intercala presente e passado, baseado em fatos históricos, e e...

En cas

Gosto de ler sobre sobre alimentação saudável. Uma alimentação que promova a saúde, e não a ruína do meu corpo. Certa vez, li um livro curioso sobre o estilo de vida das francesas. Leitura leve e interessante, focada  justamente na relação que existe entre aquilo que comemos e a nossa qualidade de vida, e como isso deve ser prazeroso e pacificador.  Dentre tantas coisas, a autora orienta a identificarmos alimentos agressores e fazermos substituições . E também nos aconselha, em caso de um ataque de fome ( en-cas ), sempre termos alguma coisa em mãos, algo que, ingerido, o corpo registre como uma refeição ligeira ( minirepas ), para calar os “pequenos demônios” ( petits démons ).  Por exemplo: ter por perto um pequeno saco com castanhas, pode ser não apenas um intimidador psicológico no caso de um ataque de vontades, como também um substituto capaz de refrear o ímpeto  da fome até o momento da refeição. Guarde isto:  En-cas... "no   caso de" . O interessan...

2020: Vá, coloque um vigia.

Gosto de encerrar o ano avaliando o que se foi e sistematizando minhas intenções para o novo ciclo de 365 dias. Mas o fato é que chegou 31/12/2019 e eu não consegui pensar em nada. Chegou dia 1º e nada me ocorreu. Então finalizei a leitura do livro “Vá, coloque um vigia”, de Harper Lee, livro que ganhei do meu filho Guilherme, em meu aniversário. Finalizei a leitura tão absorta na narrativa, que imediatamente reiniciei sua leitura. De certa forma, me identifiquei com os conflitos de Jean Louise, personagem protagonista, e os enfrentamentos necessários pelos quais ela passou. O sábio e excêntrico tio Jack foi o facilitador no exercício de autoconhecimento da sobrinha: “A situação ficou suportável, Jean Louise, porque agora você é você... o vigia de cada um é a própria consciência” (pag. 239). “Vá, coloque um vigia” , me fez pensar sobre um despertar da consciência de mim mesma, desgrudada da consciência dos outros: pai, mãe, marido, filhos, amigos, convenções... Em outras p...

Tem certas imagens que me fazem refletir...

Como diria Rubem Alves, "Ah!", retrucarão os professores, "a felicidade não é a disciplina que ensino. Ensino ciências, ensino literatura, ensino história, ensino matemática..." Mas será que vocês não percebem que essas coisas que se chamam "disciplinas", e que vocês devem ensinar, nada mais são que taças multiformes coloridas, que devem estar cheias de alegria? Pois o que vocês ensinam não é um deleite para a alma? Se não fosse,vocês não deveriam ensinar. (...) O mestre nasce da exuberância da felicidade. E, por isso mesmo, quando perguntados sobre a sua profissão, os professores deveriam ter a coragem para dar a absurda resposta: "Sou um pastor da alegria..." Mas, é claro, somente os seus alunos poderão atestar da verdade da sua declaração... A alegria de ensinar. Rubem Alves. Pag. 12, 13.

Uma planta, uma criança, um livrinho

" 'Agrada-nos ver desvanecer os dias mais caros, Para sentir amadurecer um bem mais caro ainda; Uma planta rara, que no jardim cultivamos, Uma criança que educamos, Um opúsculo que escrevemos.' Puxou a caneta da escrivaninha, procurou e encontrou uma folha de papel e nela copiou os versos. Mais tarde mostrou-os a Plínio e acrecentou: - Este versos agradaram-me, eles têm uma característica: tão secos e tão sinceros, vão ao íntimo! E combinam tão bem comigo e com a minha situação e meu estado de espírito atuais. Se bem que não seja jardineiro e não deseje consagrar meus dias ao cultivo de alguma planta rara, sou contudo um professor e educador e estou a caminho para assumir meu encargo, para encontrar a criança que quero educar. Como me alegro com isto!" O jogo das contas de vidro. Hermenn Hesse. pag. 499