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Olá, querida

Olá, querida!

Não. Não me refiro a uma saudação.

Refiro-me ao livro de Ann Napolitano, “Olá, querida”.

Foi a nossa proposta de leitura do Clube do Livro este mês.

Devorei a leitura, como sempre, quando um livro me envolve e me joga para dentro das suas páginas.

Agora, orfã da leitura e com saudade das personagens, fui procurar o filme Adoráveis mulheres, baseado no livro Mulherzinhas, de Louisa May Alcott, publicado em 1868. Isto porque no Olá, querida, as irmãs Padavano têm nas irmãs de Mulherzinhas uma referência, uma bússola existencial delas próprias.

Então pensei: vou ler Mulherzinhas também. E comecei, mas desisti. Desisti não porque não tenha gostado do livro, mas porque senti que estava ficando saturada do universo das personagens, e eu não queria isso. Resolvi me afastar.

Mas ainda havia muito tempo para o próximo encontro do clube, então pensei: o que faço enquanto isso? O que vou ler agora?

Abri meu Kindle e escolhi aleatoriamente Machado de Assis: Helena, Publicado em 1876. Me deliciei na leitura, na linguagem culta, na observação da cultura, dos usos e costumes da época e suas pitadas de crítica. Mas a leitura foi rápida e me vi novamente me perguntando: e agora?

Então, certo dia, nos stories do Instagram, vi um post da querida Mari Queiroz, uma das curadoras literárias do Clube, dizendo que para cada encontro ela lia o livro duas vezes.

Imediatamente pensei: Olá, querida! Vou ler você de novo.

E recomecei a leitura.

Então, um outro universo se abriu para mim. Eu já conhecia o enredo, as personagens, as reviravoltas, os tempos, a cadência de leitura que, aliás, tomou um novo ritmo.

Comentava com uma amiga, que também está no Clube, que eu havia achado a primeira parte do livro um pouco arrastada e que só depois de um determinado evento na história, a leitura deslanchou e fluiu rapidamente.

O curioso é que, na releitura, estou me deliciando justamente nesta parte julgada por mim, outrora, como maçante.

Me vi muito interessada pela obra de Walt Whitman (1819-1892), poeta norte-americano, autor preferido de Charles, apreciado por sua filha Sylvie. Me encantei com pai e filha, me identifiquei com ambos, por vezes.

Pausei a leitura e fui atrás de algum livro de Whitman. E foi assim que descobri uma biblioteca digital, a BibliOn. Baixei o aplicativo, peguei emprestado o livro Poemas escolhidos. Confesso, não é uma poesia rasa, muitas vezes ela não é fácil, entretanto, várias vezes ela me fisgou.

“Quando li o livro, a biografia famosa,

E é isso então (disse eu) o que o autor denomina a vida de um homem?

E assim irá alguém quando eu estiver morto escrever minha vida?

(Como se alguém realmente soubesse algo de minha vida,

Ora até eu mesmo frequentemente penso que pouco ou nada sei de minha vida real,

Só algumas dicas, alguns sinais tênues difusos e dissimulações

Busco traçar aqui para meu próprio uso).”  Quando li o livro – Poemas escolhidos – Walt Whitman.

Quando terminei de ler esse poema, lembrei de uma parte que destaquei na leitura do Olá, querida. As Padavano, menos Cecelia, se não me engano, estão na igreja, no velório de Charlie,

“(...), e Sylvie sofria ao ver como esse padre e as pessoas no velório definiram Charlie com seus fatos biográficos, sendo que ele era muito mais. Era grande, bonito e mais presente ao dar fórmula infantil para uma jovem mãe do que fora em qualquer dia que passou na fábrica de papel. Ele era seus atos de bondade, seu amor pelas filhas e os vinte minutos que passara com Sylvie atrás da mercearia naquela noite.

Essa conversa ajudou Sylvie a se entender de uma maneira nova.” Pag. 102.

“Fatos biográficos” são capazes de definir o que é a vida de alguém? Ou como diz Whitman, “E é isso então (...) o que o autor (de uma biografia famosa) denomina a vida de um homem?

Terça-feira, meus filhos estão em casa, vamos almoçar os quatro aqui. Meu marido, surpreso, comenta: fazia tempo que não almoçávamos os quatro assim, aqui em casa. Uma paz me invade.

Após o almoço, o cheirinho do café gourmet recém moído e recém passado invade o apartamento. Eu e meu filho mais velho estamos sentados nas poltronas da sacada, tomando nosso cafezinho e observando a paisagem. Moramos no 21º andar.

De repente, um grande pássaro voa lindamente à nossa frente, majestoso, asas completamente abertas, flutuando na imensidão do nada, leve, livre, solto. Faz uma volta e exibe-se novamente, para o meu deleite. Então vejo mais um, e mais um, e digo: "Que lindo! Que espetáculo! Eles praticamente nem batem as asas, apenas deslizam. Como dever ser incrível poder voar!".

Ao que meu filho retruca: “Credo, mãe! São urubus!”.

Então. Onde um vê apenas urubus, outros veem poesia.

À noite, volto à BibliOn, para continuar a ler Whitman, e no ambiente virtual da biblioteca, me deparo com meu querido Rubem Alves, e acabo achando um livro que eu gosto muito – Variações sobre o prazer. Ganhei o livro físico de uma amiga do coração, mas o perdi, ao emprestá-lo. Portanto, achá-lo novamente me encheu de uma alegria pueril! Claro, peguei o livro emprestado e comecei a ler, para matar saudade.

Mas, olha que interessante, lá pelas tantas, estava escrito:

“... já observaram os urubus – como eles voam em meio à ventania? Eles nem batem as asas. Apenas deixam-se levar, flutuam. Esse jeito de ser chama-se sabedoria. A poesia nos torna mais sábios, retirando-nos do torvelinho agitado com que a confusão da vida nos perturba”.

E ainda mais a frente, que coincidência, Rubem Alves ao asseverar que devemos viver nossa vida com sabedora, cita Walt Whitman:

“Quem anda duzentos metros sem vontade/anda seguindo o próprio funeral/vestindo a própria mortalha...”

Não terminei a leitura da releitura do Olá, querida, e não vou terminar, pelo menos, não a tempo para o encontro. E tudo bem, porque, na madrugada, Whitman me disse:

“... o primeiro passo digo me entusiasmou e agradou tanto,

Mal tenho ido ou desejado ir adiante,

Mas paro e vagueio o tempo todo para cantá-lo em canções extáticas”. Iniciando Meus Estudos – Poemas escolhidos – Walt Whitman.

Eu também pauso e vagueio, reflito sobre esse vai e vem impulsionado pela leitura, textos que entram dentro de outros textos, autores que conversam entre si, a vida que se insinua vibrante na caminhada, transformando esse meu texto em uma canção extática – extática com “x”, de êxtase.

Olá, querida conversou comigo de tantas formas, e eu nem sequer as citei aqui.

E me presenteou com Whitman e Mulherzinhas – este ainda vou ler, em outro tempo.

E finalmente, por que o título “Olá, querida”? Vai ter que ler o livro. O parágrafo que o explica, para mim, encerra em si a essência do livro.

Minha frase preferida: “Charlie as viu e amou por quem eram”.

 

Ellen – 16/07/2025



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