Me encontrei recentemente com uma amiga querida. Almoçamos juntas e colocamos o papo em dia. Compartilhamos vida.
Vida!
Embora haja estudos e pesquisas abundantes sobre uma
humanidade cada vez mais ansiosa, eu olho perplexa para minha própria vida. Constato
a minha vulnerabilidade, meus vazios existenciais, meus questionamentos, identifico
gatilhos, admito períodos em que sinto tédio e ansiedade, e relembro tempos
passados.
Parece-me que, outrora, minha fé era tão firme e inabalável, a esperança tão viçosa e resiliente e eu mais forte. Pode ser que sim ou pode ser que não... porque, no final das contas, isso não é o mais importante.
Eu
admito as minhas mazelas, mas elas não me definem. Tenho aprendido que o cerne
da minha vida não é o que eu sinto. O mais importante não são os meus
sentimentos, embora eles sejam importantes. O cerne está no que eu creio. É daí
que flui a vida. Essa é a nossa âncora.
Certa feita, um especialista na Lei de Moisés, querendo
provar Jesus, pergunta a ele o que era preciso fazer para ter a vida eterna.
Jesus lhe responde perguntando: “O que a Lei diz, como você a entende? O homem
responde: “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma,
de toda a sua força e de toda a sua mente, e ame o seu próximo como a si
mesmo”. Então Jesus diz: “Está correto! Faça isso, e você viverá.”
Eu escolho crer em Deus e amá-lo, mesmo que eu esteja me
“sentindo” fraca, ansiosa, em pânico, desanimada, cansada, deprimida, porque,
apesar de tudo isso, e lembrando as palavras do salmista, “ainda pertenço a
ti; tu seguras minha mão direita. Tu me guias com teus conselhos e me conduzes
a um destino glorioso. Quem mais eu tenho no céu senão a ti? Eu te desejo mais
que qualquer coisa na terra. Minha saúde pode acabar e meu espírito fraquejar,
mas Deus continua sendo a força do meu coração.” Salmos 74.23-26.
Eu escolho Deus e ele segura a minha mão direita, me guia
com seu conselho, me conduz para um destino glorioso! O cerne está no que eu
creio, e não no que eu sinto.
O especialista da Lei disse, citando as escrituras: “...
e ame o seu próximo como a si mesmo.”
Eu me saboto constantemente. Inúmeras vezes eu falo para mim
mesma, em pensamento: você não é suficiente, você não é capaz de ser boa “nisso
ou naquilo”, fulana é mais legal do que você, você é fraca, você é maçante,
você é séria demais, você é muito contida, você é antissocial, você é orgulhosa
e arrogante, falsa... e por aí vai.
“Amar o próximo como a si mesmo” me faz pensar em “como” eu me amo. De fato, pessoas importantes na minha vida, e também pessoas que me são indiferentes, por vezes, “martelaram na minha cabeça” ideias depreciativas sobre mim. E eu acreditei!
Edith Eva Eger, em seu belíssimo livro A bailarina de Auschwitz, relembrando sua infância, e não obstante ela fizesse parte de uma família amorosa, narra o descrédito dos pais devido a sua vesguice, as musiquinhas maldosas que as irmãs cantavam para ela, e nos conta que, mediante isso, o problema era que ela acreditava! E mais tarde, ao passar pelos campos de concentração nazista, a desumanização e a humilhação chegaram a níveis inimagináveis. Mas ao longo da sua vida, como uma sobrevivente, ela encontrou a cura, uma cura feita de escolhas diárias.
Amar a mim mesma tem a ver com escolhas, as pequenas escolhas que faço diariamente.
Eu escolho em que, e em quem acreditar.
Eu escolho o que me faz bem e eu escolho rejeitar aquelas ideias e conceitos que não me representam.
Eu escolho as pessoas que quero na minha vida, que me acrescentam. E as pessoas que fazem parte da minha vida, mas que me sugam a energia, eu escolho como estar com elas e como amá-las.
Eu escolho como eu uso o meu tempo, como eu priorizo minhas pautas internas.
Eu escolho estar atenta a mim mesma e a discernir meus próprios pensamentos pois, não raro, eles distorcem a realidade.
Eu escolho estar na luz.
Escolhas!
Viktor Frankl, outro célebre sobrevivente do Holocausto, nos diz que “no campo de concentração se pode privar a pessoa de tudo, menos a liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas” (Pag. 88).
Edith Eger completa: “Cada momento é uma escolha. Não importa
quão frustrante, chata, limitadora, dolorosa ou opressiva for nossa
experiência, podemos sempre escolher como reagir”.
Eu preciso ter clareza que esse é um exercício constante. É
uma busca constante a favor de amar a mim mesma, e que, de quebra, me habilita
a amar o próximo.
Essas escolhas diárias têm tudo a ver com Filipenses 4.8:
“O melhor que vocês têm a fazer é encher a mente e o
pensamento com coisas verdadeiras, nobres, respeitáveis, autênticas, úteis,
graciosas - o melhor, não o pior; o belo, não o feio. Coisas para elogiar, não
amaldiçoar”.
Por fim, as palavras de Jesus – “Faça isso e viverás”,
me levam a rejeitar a morte em vida e me fazem entender que posso ter vida na vida.
E declaro, para que eu mesma me escute, que eu escolho diariamente crer em Deus, diariamente crer que ele existe, me ama e cuida de mim.
Eu o amo com todo o meu coração, toda a minha
alma, todas as minhas forças e com toda a minha mente. Amém.
Para mim e para minha amiga Eulina, porque cremos.
Bíblia Sagrada – Lucas 10.27-28. Salmos 74.23-26. Filipenses
4.8.
A bailarina de Auschwitz – Edith Eva Eger
Em busca de sentido – Viktor E. Frankl

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