Choveu esta manhã.
Fui para o escritório e trabalhei embalada ao som da água caindo lá fora.
Olhei para a sacada e vi a pombinha lá, andando de um lado para o outro, toda molhada, vez por outra chacoalhando as suas asas para se livrar do peso da água.
É preciso dizer, ela é uma visitante ilustre que todo dia vem dar o “ar da graça”, tão perfeita, toda branquinha com o seu rabinho de leque, verdadeira obra de arte do Deus criador. Aliás, costumo dizer que quando ela aparece é Deus vindo me dar bom dia, encarnado na sua criação.
Mas hoje, ao olhar para ela ali debaixo da chuva, senti o ímpeto de protegê-la, e comecei a pensar como eu poderia fazer um abrigo ali, para ela.
Cada vez que eu a olhava andando de lá para cá, meu coração apertava, eu queria protegê-la, a “minha pombinha".
E quanto mais meu coração apertava, mais eu ia ganhando consciência de que eu não deveria fazer nada. Ela sabe se virar, ela tem para onde ir, seu instinto lhe diz o que fazer. Foi assim que o Criador fez.
A luta interior foi real, mas controlei minha ansiedade e desapeguei. Em instantes, ela já não estava mais lá. Eu sei que amanhã ela volta, porque essa é a ordem das coisas.
Como Salomão, “Observei aquilo e fiquei pensando; olhei, e aprendi esta lição”(1): Muitas vezes os nossos filhos são como a pombinha.
Quantas vezes os vemos em situações difíceis, “na chuva”, impacientes ou inseguros, ou com medo, ou simplesmente entediados.
O nosso coração se aperta e a gente quer fazer alguma coisa para protegê-los, para poupá-los o sofrimento, queremos construir um abrigo para não se molharem, e mal desconfiamos que, muitas vezes, o que os nossos filhos precisam é justamente passar pela chuva, aprender a bater as asas para tirar o excesso de água, saber a hora de levantar vôo e se proteger.
Nosso excesso de proteção pode deixá-los dependentes demais, deformados, de asas fracas, incapazes de alçar seus vôos.
A nossa luta interior é grande porque é difícil controlarmos nossa ansiedade diante de um filho que sofre, ou diante dos desafios que a vida se encarrega de apresentar a eles. Precisamos aprender a “lição do desapego”: “Quem se apegar a própria vida a perderá quem abrir mão de sua vida a salvará” (2). Uma certa dose de desapego é necessária para que o outro viva, respire.
Então lembrei de algo que li tempos atrás:
“Eu não sabia disso na época, mas enfraquecemos os nossos filhos quando tentamos afastá-los do sofrimento. Ensinamos a eles que os sentimentos são assustadores. Mas um sentimento é só um sentimento. Não existe certo ou errado. Não deveríamos tentar entender o que os outros sentem ou animá-los, é melhor deixar a emoção fluir e simplesmente ficar do lado dizendo: ‘Conte mais’.
Não diga o que eu costumava dizer a meus filhos quando eles ficavam chateados por serem alvo de zombaria ou rejeição: ‘Sei como você se sente’. Trata-se de uma mentira. Ninguém sabe como o outro se sente. Não está acontecendo com você. Para ser compreensivo e solidário não é preciso assumir a vida interior das outras pessoas como se fosse sua. Essa é outra forma de roubar a experiência do outro e de mantê-lo preso. Gosto de lembrar meus pacientes que o oposto da depressão é a expressão. O que você expressa não deixa doente, mas o que mantém preso sim.” (3)
Para finalizar, eis o "resumo da ópera": Libertem suas pombinhas!
Ellen - 20/08/2025
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(1) Provérbios 24.32
(2) Lucas 17.33
(3) A liberdade é uma escolha - Edith Eva Eger

Sensacional, minha amiga. Quanta sensibilidade e sabedoria Deus te entregou.
ResponderExcluirFeliz que gostou 🤗
ExcluirQta sensibilidade, minha amiga. Texto cheio de sabedoria. Vou compartilhar
ResponderExcluir😉
ExcluirTexto repleto de sabedoria! Amei. Bj. Vanessa
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