Sabe quando você grifa um trecho de um livro que você está lendo, ou anota uma frase que ouviu em uma palestra ou pregação? Certa vez, viajando de avião, uma frase inscrita na capa das poltronas chamou a minha atenção: “Descubra se o futuro é cinzento mesmo, ou se é você que está de olhos fechados”
Quando esse tipo de coisa acontece, vale a pena parar, e se perguntar por que aquilo chamou a sua atenção, por que te atraiu? Pode haver uma razão bem especial por trás desse interesse.
Mas desta vez, não foi lendo um livro, ou ouvindo alguma preleção, que eu fui fisgada. Foi vendo uma cena de um episódio do The Good Doctor, aquela série que se dá predominantemente em um ambiente de hospital, e conta as histórias de Shaun Murphy, um jovem médico cirurgião com autismo.
No episódio em questão, Shaun e sua esposa Lea estão curtindo aquela fase inicial de pai e mãe com Steve, seu bebezinho, e estão percebendo o quanto a chegada de uma criança altera a dinâmica da casa e do relacionamento.
Shaun ama seu filhinho, mas sente saudade da sua esposa. Lea ama seu filhinho, mas também sente saudade do seu marido e da vida que tinham quando eram só os dois.
Então eles resolvem marcar um encontro, como faziam antes. À princípio, Lea fica receosa, porque não sabe se vai conseguir sair de perto do seu bebê. Mas a Dra. Jordan, amiga do casal, se prontifica a ficar de babá e eles partem para o karaokê que iam quando eram namorados. Eles planejam se divertir e beber umas tequilas. Estão de fato empolgados com a aventura.
A cena seguinte são os dois lá, tomando um drink e tentando curtir. Lea comenta que, realmente, parece mesmo os velhos tempos, um encontro assim, só os dois. Mas Shaun observa que o Karaokê não tem mais a música deles do Bee Gees; que o suporte do letreiro no bar não faz mais o barulhinho que fazia antes, e que a marca da tequila é outra.
O celular toca, e eles têm um sobressalto: aconteceu alguma coisa com o bebê? E Lea, então, fala a frase que me fisgou:
“Sinto muito, mas não é como antigamente. Não é só a tequila e a música que mudaram. Tudo mudou. Como eu vejo o mundo, como eu te vejo, como eu me vejo. É só um bebezinho tão pequeno e o mundo todo está diferente”.
Nesse momento, Shaun tem um insight para um caso médico que ele está investigando, e diz que tem que ir para o hospital, e Lea diz que tem que ir ficar com Steve. E olham um pro outro com aquela cara de "é isso!".
A cena retrata essa dinâmica da vida que se repete e repete, uma dinâmica que é recorrente. Inúmeras vezes sentimos saudade de algo que já se foi. Muitas vezes ficamos frustrados porque não conseguimos mais viver aquilo, ser daquele jeito, possuir aquelas coisas, viver o frenesi ou a paz de outrora, parece que até a fé já não é mais a mesma e o corpo também não, e por aí vai.
E não nos damos conta de que aquela pessoa que éramos já não existe mais mesmo, aquele contexto já mudou, e não volta mais. A gente precisa desapegar pra poder prosseguir e fazer novas descobertas, ter novas experiências e ressignificar outras. É a vida em movimento onde nada se repete.
É assim, é isso, e tudo bem. Absorva.
E já que é para lembrar de frases, fecho este texto com esta, dos tempos de faculdade, nas aulas de dialética:
"Ninguém entra duas vezes no mesmo rio: Pois, na segunda vez, as águas já mudaram, e a pessoa também. Nada é permanente, exceto a mudança". Heráclito.
Ellen 25/03/2026

Desapego necessário mas difícil. Obrigada pela reflexão
ResponderExcluirConcordo! 😘
ExcluirAmei o texto. Bem isso, estamos em constante mudança. E assim é a vida. Bj
ResponderExcluirFeliz que tenha gostado! Bj! 😘
ExcluirLendo esse seu texto Ellen, lembro de vc bebezinha, suas mãozinhas me encantavam.
ResponderExcluirVocê, minha bebezinha pegou seus bebezinhos. Seu bebezinho pega agora seus bebezinhos...como o tempo é dinâmico. É gratificante. Vivamos intensamente cada momento!
Que lindo, mãe! É o movimento da vida! Obrigada por vc aqui! ❤️
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